O presente projeto vincula-se a uma
pesquisa ampla sobre o estudo da canção no Brasil, desenvolvida pelo proponente
desde a especialização, com o estudo de uma nova perspectiva para a leitura da
canção; passando pelo mestrado, onde se apresentou, com exemplos de leituras de
canções emblemáticas, um caminho que vai do samba à bossa nova ( TEIXEIRA,
2015); até o doutorado, com o estudo da obra de Caetano Veloso entre os anos de
2006 e 2013 ( TEIXEIRA, 2017), e pretende agora investigar a contribuição da
canção italiana, a partir da perspectiva da presença ( GUMBRECHT, 2010) na canção
popular brasileira.
Ainda hoje o Italiano permanece como
língua franca da música dita clássica. A grande maioria dos libretos
operísticos foram escritos em italiano. As óperas de Mozart, de Carlos Gomes,
de Wagner, eram cantadas em italiano. Com a chegada de meios de reprodução
mecânica da música, no limiar do século XX, outros estilos ganham em
popularidade trazendo consigo as canções que fariam do século XX o “Século da
Canção” (TATIT, 2008). No Brasil, a gravação de “Pelo Telefone” para o carnaval
de 1917 marca a passagem do samba folclórico para o samba moderno. De
perseguido pelo Estado a símbolo do mesmo, o Samba torna-se o lugar do encontro
de diversas identidades. Dentre elas, não é complicado constatar o elemento
italiano, sobretudo no cancioneiro de Adoniran Barbosa.
Mais adiante, no limiar dos anos
sessenta, o italiano se faz presente em duas frentes: de um lado há uma
tradição romântica da canção italiana que servirá de influência, por exemplo, a
um lado expressivo da dicção de Jerry Adriani e de Roberto Carlos,
Roberto Carlos realizou um oportuno
sincretismo do iê-iê-iê romântico, magistralmente registrado nas melodias de
Paul McCartney, com as baladas italianas que inundavam as paradas de sucesso
dos anos 60 nas vozes de Pepino di Capri, Bob Solo, Nico Fidenco, Pino Donagio
e Sergio Endrigo entre outros (Tatit,
2002. p. 188).
Por outro, há a tradução italiana do
rock anglo-americano que facilita o caminho entre a canção popular brasileira e
o rock. Como não se lembrar de “Banho de Lua”, versão de “Tintarella di luna”
gravada por Celly Campelo em 1960, mesmo ano em que fora lançada na Itália por
Mina. Desde então, as canções italianas, no original ou em versões, começam a
tocar nas rádios brasileiras tão naturalmente que quase não são percebidas como
músicas estrangeiras ou como versões de músicas italianas. Ainda hoje o
brasileiro se surpreende cantando ou assobiando canções italianas que tocam nas
rádios ou nas novelas, como se fossem canções nacionais. Apesar de anos e anos
de dominação cultural norte-americana, a língua italiana, neolatina como o
Português, ainda hoje é mais transparente ao brasileiro comum do que o Inglês,
por exemplo.
A enorme quantidade de imigrantes
italianos que desembarcaram no Brasil não determinou o isolamento de um grupo,
hoje as famílias italianas se encontram integradas à cultura brasileira. Com os
imigrantes italianos aportou no Brasil toda uma cultura que até então só os
mais letrados, sobretudo leitores de Dante, Petrarca e Boccaccio, tinham algum
acesso. Desde então, o elemento italiano na música brasileira é constitutivo de
um todo híbrido chamado de música popular brasileira. É ilustrativo que a
canção “Oh! Minas Gerais” (José Duduca de Morais e Manoel Araujo), hino
extraoficial do Estado de Minas Gerais, foi composta sobre uma tradicional
melodia Napolitana “Vieni sul Mar”. Antes, no entanto, a mesma melodia já havia
sido utilizada por Eduardo das Neves em 1912 em uma canção que homenageia o couraçado
brasileiro batizado como Minas Gerais.
A partir da constatação da presença
de um tempero italiano na formação da canção brasileira e, tendo-se em vista a
ausência de estudos específicos sobre o tema, faz-se necessário medir a
amplitude da presença da canção italiana na canção popular brasileira para se iluminar
um lado ainda pouco trabalhado dentre os estudos acerca da história do
cancioneiro brasileiro.
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